quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Elogio ao Chico

Francisco Ribeiro (15/03/1965-14/09/2010) era, além de todas as coisas que realmente o definiam, também o Chico - meu primo com vários graus de distância ainda assim próximo, ainda que nunca tenha pensado muito nisso até agora, que faleceu.

A distância definitiva da morte torna-nos mais próximos das nossas memórias com aqueles que partiram, porque não é senão assim que viverão doravante, pelo menos do lado de cá. E se ao Francisco Ribeiro não faltaram laudes e elogios e, quem sabe, até um dia venham a fazer dissertações de mestrados e doutoramentos sobre a música que compôs, tocou, cantou e viveu, já para o Chico os muito próximos guardarão na intimidade muito mais, que os outros não conhecem, mas durante menos tempo.

A mim parece-me que também o Chico merece um bocadinho da eternidade da obra e do nome do Francisco e porque, não sendo íntima não corro o risco de o devassar, nem de um dia mais tarde ao reler as boas memórias lembrar também as más porque não as tenho dele, aqui ficam as minhas memórias do primo Chico, para a posteridade blogosférica.

O Chico e eu temos muitos anos de diferença, apesar de pertencermos à mesma geração familiar, pelo que nunca andámos propriamente na mesma fase nem nos mesmos círculos, mas partilhámos desde que me lembro de existir o mesmo Natal. Na nossa família a véspera de Natal era a reunião anual de afectos, luxos e música a que ninguém podia faltar. Cada ano calhava na casa de alguém, que fornecia perú e bacalhau e algumas outras coisas, os outros traziam sobremesas, vinhos, entradas, prendas e vozes, tão afinadas quanto possível.

Quando (quase) todos tinham chegado começavamos a comer, os eternos últimos chegavam a tempo de introduzir uma pausa entre pratos e obrigar os miúdos a esperarem mais um bocado impacientemente, até porque depois de todos acabarem de comer e antes de abrir as prendas ainda faltava cantar. Sempre as mesmas músicas natalícias, a 2 ou 4 vozes, cantadas ao Menino Jesus. O Chico era de um modo geral discreto durante a noite, como seria de esperar numa casa cheia de mulheres exuberantes e com vozes poderosas, habituadas a falar para salas com mais de 30 pessoas, numa família onde os homens não abundavam. Ocasionalmente, ainda assim, a gargalhada sonora do Chico ouvia-se alto e bom som, bem colocada e espontânea, o timbre diferente denunciava-o.

Quando chegavamos às cantorias, o Chico assumia a dianteira - cada vez mais à medida que o tempo e as gerações foram passando e ele próprio foi estudando. Dirigia, organizava, dava indicações e corrigia, amenizava egos e dava abraços, fazia críticas muito directas e demolidoras com um ar sério ou uma gargalhada cruelmente imparável, seguidas de gestos ternos e sorrisos conciliadores, e o resultado era melhor, ele já tantas vezes com aquele ar de "pelo céu vai uma nuvem" e pela sua cabeça também, nuvem essa que já ninguém estranhava.

De vez em quando, escorregava do tema Natal para outras músicas profanas que a família conhecia, sabe-se lá desde quando, e às vezes gostava tanto delas ou de outras ladainhas ritmadas que passaram de geração em geração, que levava esses ritmos e melodias, esse espírito de Natal e de família, com cheirinho a fritos e a coro, para o trabalho. Permeado de Natais, emprestava o contexto das suas musicais gargalhadas à erudição da música que apresentava em palco.

Talvez por isso, enquanto ao longo dos anos fui ouvindo a sua música e a sua voz, as profissionais, sempre me pareceu que havia ali um todo coerente, o Francisco sempre o mesmo, acertando os coros e o contexto exterior aos sons que ouvia, perfeitos, dentro da sua cabeça, e algo de sagrado a infiltrar-se mesmo na música mais profana, rumo ao Menino Jesus. Para mim, só faltam às suas obras as gargalhadas irreverentes do Chico, que ainda agora, quando ouço A Junção do Bem, estou sempre à espera de apanhar entre as faixas...
Recordo também a imagem distante e cosmopolita que fixei dele durante a minha adolescência e os tempos de faculdade, até ser surpreendida com o primo disponível e paciente que quis aparecer, pontualmente, no meu 30º aniversário e estar comigo, conhecer os meus amigos, estar ali ao fim de pouco tempo com natural à vontade entre o meu núcleo duro - paradoxalmente muito presente, apesar daquele ar, que mantinha, de quem vai pelo céu, como uma nuvem, não se vê aqui da terra para onde. Surpreendeu-me várias vezes depois disso com a memória de momentos aos quais parecia não ter dado muita atenção, chamando as pessoas - e as coisas - pelo nome.
Finalmente, guardo a memória de uma das raras pessoas nos tempos que vivemos que, por mais que corresse daqui para ali e andasse embrenhado na sua própria vida nunca deixava de querer saber dos outros e ouvi-los. Por isto, se por mais não fosse, já o Chico seria grande - além de muito alto. E por estar asim habituado a olhar para baixo, talvez olhe para aqui de vez em quando e goste de ver que nos vamos lembrando dele - e que a sua vida e o que dela fica nos interessa.