A religiosidade inerente a professar uma fé parece coisa apropriada à serenidade de um mosteiro bucólico ou de um eremitério, que facilitem e propiciem a procura de Deus. Esta busca encontra obstáculos, vários e cumulativos, no bulício do trânsito, nos gases de escape, nos muitos chefes e colegas, nas montras, nos anúncios, no ruído, enfim, em todas as muitas e diversas solicitações tipicamente urbanas que nos chamam para tudo o que existe de mais longe da introspecção e da conversa com Quem mora dentro.
Nenhum lisboeta se surpreende com as notícias de que as igrejas se esvaziam e a Igreja tradicional tem cada vez menos e mais envelhecidos crentes, pois a maioria dos lisboetas nem sequer se apercebe do desparrame de igrejas de todos os tipos que existem nesta cidade, à porta de muitas das quais passarão todos os dias milhares de pessoas sem sequer reparar nelas, nem perceber que, muitas vezes, se encontram abertas. Surpreendente para um lisboeta é encontrar as fiéis resistentes nas igrejas do interior, fiel aqui sendo palavra duplamente adequada, que para quem não entende a fé dos Homens, aquela fidelidade das mulheres do interior parece visivelmente assemelhar-se à canina.
Eu, lisboeta, crente, hoje me surpreendi, dei-me ao direito de me surpreender, mesmo no meio de Lisboa no auge do seu bulício. Entrei numa igreja à porta da qual passo todos os dias. A porta estava aberta, numa normal hora de almoço. A igreja não estava vazia e lá dentro várias pessoas rezavam, homens e mulheres de diferentes idades, nem um velho, nem uma velha, cada um sozinho, buscando o recolhimento e a paz e a conversa com Alguém que ouve mais e fala menos.
Então afinal é também isto que fazem durante a hora de almoço aqueles lisboetas que não fazem compras, nem ginástica, nem vão ao médico, ou à repartição, ou almoçar com os amigos, ou outra coisa qualquer...
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